Tanto julgamento, tanta repercussão para, no fim, o quê? Não vale nada que não seja a oportunidade preciosa de ter a razão. Que, também, para quê?
O amor, sempre esse palavra. Quase uma desculpa, quase um trunfo mágico que se dobra por cima das frases, depois de o texto já pronto, pra fazer sentido. E não faz.
Aliás, faz. Mas só para um lado. O lado que vê sob aquele prisma, que compreende aquela linguagem. Quanto prazer existe em humilhar, com discursos ou monossílabos, com emoção ou indiferença, quem está do outro lado?
Às vezes a vida é esse rio entre a gente. Mas, sabe, as margens são paralelas, a gente vai tudo pro mesmo lugar. Como não disperdiçar energia tentando empatar um jogo perdido? Um redemoinho de amargura tentando mudar o curso do rio. A correnteza é mais forte que as palavras. Ou mesmo do que a falta delas.
Sempre vem alguém colocar o coração no meio do furacão. Mas, olha, o coração é só uma bomba. Uma bomba automática, o que deixa tudo ainda mais absurdo: o que não se controla, o que não se desliga, não sem alguma coisa que se ingere ou se dissemina pelas veias. Mas palavras, ações, silêncios. Coração passa batido. Segue batendo. Te deixa lá atrás, com o seu coração na mão. Ou pulando pela boca. Ou partido.
Talvez consciência seria uma moeda de troca um pouco mais valorizada nesse mercado de sonhos que morrem e reincarnam em outros. Mas quem julga com consciência? Quem compreende se teletransportando pra consciênca do outro e faz exatamente aquela mesma escolha, toma a decisão maldita num espaço-tempo simultâneo? Em que momento cessam as projeções de uns nos outros e os seres podem plenamente exercer a sua semântica e simplesmente e, tão somente, ser?
Todo mundo quer ser aceito. Só que (não se iluda) aceitar é acrescentar uma quantidade cavalar de paz ao conformismo. Fazer uma escolha é se reafirmar a todo segundo e ter filhos é emprestar tudo de si a fundos perdidos. Ou, simplesmente, se doar. O que será que acontece com todo aquele sangue que a gente doa?
A medula fabrica mais célula pra formar mais sangue. Mas quem repõe a dedicação de uma vida inteira? A alguém, a um trabalho, a um ideal. Talvez a mão dupla deveria ser com a mesma pessoa nas duas pontas.
Identidade é uma coisa que se constrói com cada suspiro, com cada influência e gene e gente, tanta gente que compõe a gente. E custa tanto, dói tanto. Aquela coisa do medo e do respeito: as 2 formas de conseguir reconhecimento. Ou a venenosa mistura dos dois. Um caminho é sempre mais fácil do que o outro. Qual é qual?
A manipulação parece ser a principal e mais oculta antagonista da liberdade. Que, talvez, não passe de uma utopia criada por artistas para nos seduzir. Fé cada um tem a sua. Talvez liberdade também.
Mas encher as nossas vidas de perguntas não necessariamente irá enchê-las de sentido. Só de perguntas mesmo.
O que ocorre é que há coisas absolutamente boas e outras absolutamente ruins. Mas a maioria, não, a maioria está em algum lugar ali no meio. Do bem histórico e do mal consolidado. E no meio, misturado, boiando na superfície pra todo mundo ver. Do rio, da vida que existe entre a gente.