aí você cresce, arrefece, envelhece. ganha um pouco, perde um pouco. esse último pouco é traicoeiro: sempre parece maior. maior que a gente. você esfria, esvazia. um reflexo medular clássico é se afastar do que causa dor. só que aí a distância causa dor. como se afastar da distância?
jovem quebra tudo porque tem muito pouco a perder. eu tenho quase nada. sou poeirinha. quebro tudo e me quebro inteira. adulto é cheio de sonho enrugado pela umidade do tempo, do choro, do esforço. e os sonhos vão sendo minados, vão sendo substituídos por outros, um monte deles riscados: não é feio desistir? sobram quantos no final? quantidade, qualidade.
quanta expectativa está refletida em um indivíduo que está nascendo? e quanta estampa um velhinho que está morrendo? morrer é tão mais leve. tanto que a gente morre um pouquinho o tempo todo. cada contração do coração a mais é também uma a menos. pra que, quando a gente morrer de vez, seja um sopro. se desmaterialize. diga sim ao convite da vida, como disse aquele filme tão bonito. pra não mais lutar, não mais hesitar, não mais defender, não mais conquistar. ceder. a entrega mais crua. simplesmente não-ser. e não-ser tanto e tão plenamente que, de repente, ser. em seu formato mais sofisticado e mais primitivo.
às vezes parece que não tem jeito: quem não se corrompe ganha o quê? quem se anula à sombra dos outros perde o quê? e como punir? quanta coisa a gente pode falar sobre punição. qual verdade é a certa? a sua, pra você. a deles, pra eles. as verdades definem mocinhos e vilões. quando, no fundo, todo mundo é tudo e cada um vai afiar as garras no momento em que julgar necessário. cada um vai tentar impor a sua verdade de um jeito e todo mundo vai sair ferido. porque bancar as próprias escolhas é comprar a briga da sua vida. como comprar uma briga se não se tem como financiá-la? as prestações vão consumindo os laços, vão desgastando a humanidade nossa de cada dia. vira tudo vilão.
não se importar com o que pensam é a mentira mais bem inventada na qual a gente pode acreditar. porque é assim que se anda pra frente. senão vamos todos disperdiçar tudo em palavras.
se deixa. se deixa enovelar por essa luz que entra de manhã, encarando-a sem franzir a testa, só aceitação mesmo. a espuma da louça recém lavada ainda nos seus dedos. essa é a escolha desse minuto. (cada um não é uma?) fechar os olhos e mergulhar na escuridão de dentro. e, tateando, encontrar o próprio prumo. morder um morango que espalha o seu suco por todas as papilas da sua língua, mancha a sua boca de vermelho, deixa aquele sabor de brinde. até passar.
porque o que sobra é sempre só gente. só corpo, saliva, cheiro, emoção, angústia. tudo igual, comprando a própria briga todo dia, um dia ganhando, outro perdendo, um dia sendo mocinho, outro dia bandido, carregando tanta bagagem pra um dia poder, enfim, não carregar nada.
queria tanto falar de mágica.