Eu nunca fui só uma coisa. Nunca fui só estudante; eu era estudante, escritora amadora, “tocadora” de violino, rata de academia e viciada em chats de mirc. Depois que eu entrei pra faculdade, eu não podia ser só acadêmica de medicina. Eu era acadêmica de medicina, participante de blog literário, caçadora de aventuras em viagens ao outro lado do mundo e em acampamentos nacionais, estudante de francês, cinéfila, obcecada por festivais de animação e especialista em feira livre, supermercado e elaboração de cardápios.
Então é lógico que eu não ia ser só médica.
Desde que me formei em medicina, poucas coisas extra-curriculares ficaram. Algumas deixam uma saudade gostosa: o violino, a escrita, as aventuras. Talvez eu volte a fazer alguma ou todas essas coisas.
Como boa geminiana, tratei de me reiventar um pouco mais pra me reerguer de obstáculos pesados, veio a necessidade de uma espiritualização mais consistente e, com ela, uma identificação inesperada e admiração pé-no-chão pela filosofia budista. Uma trégua com a psicanálise, que virou cúmplice. E assim como o “eu” real eram muitos, o virtual não foi diferente. Desde 2000 tive blog de textos mais literários, blog de textos mais intimistas, blog secreto de confissões, blog de imagens cotidianas. Depois veio blog de brechó, que foi um verdadeiro exercício de se apaixonar por roupas e cores devagarinho, mesmo que elas estivessem indo embora para outras pessoas, porque sempre me estimulavam a beber de outras fontes, a buscar mais. Depois, veio o blog de coleção dos melhores momentos de cada dia, onde eu tentava casar texto com imagens tiradas de fontes incríveis, devidamente creditadas, é claro. E ainda um blog sobre idéias de decoração e listas de desejo para a casinha onde eu vim escrever a minha própria história, de amor, de sonhos e de realismo.
Mas a moda. A moda nunca foi importante pra mim. E eu só comecei a nascer pra essa coisa, à qual a maioria das mulheres se atraem desde pequeninas, há pouquíssimo tempo. Quando enxerguei pelo ângulo que transcende o formato cru de pensar em tudo como estratégia de consumo, um dos principais combustíveis que inegavelmente giram o mundo onde a gente vive. Descobri que a reivenção, que sempre foi alguma parte bem essencial de mim, também acontece via tecidos, texturas e cores. Que é possível, sim, se comunicar através de roupa, sapato, colar, brinco, bolsa, maquiagem. Que pode não ser fútil, pode ser só mais uma camada de personalidade. Que, não importa o que você vista, você está comunicando alguma coisa. E que, se a vida é determinada por escolhas que a gente faz o tempo todo, por que não escolher com um pouquinho mais de cuidado e carinho aquilo que a gente usa não pra esconder (como era a função pré-histórica), mas pra valorizar a casa da nossa consciência? Esse aglomerado de células que respiram, que se nutrem, que morrem e nascem. Chamado corpo. E quanta beleza, quanta criação, quanta diversidade a gente pode agregar a nós mesmos? Todo dia. E de tanto ver na telinha pequena do computador tanta gente no mundo todo transformar em arte a forma de projetar a sua imagem no mundo, não demorou muito a me dar vontade de tentar também. (Eu que já tentei tanta coisa que valeu à pena.) E assim começa esse diário de armário, um exercício de reinvenção, um desafio de uma coisa que nunca me foi instintiva, natural. Uma experiência de uma nova forma de comunicação. Mesmo que seja uma comunicação pra poucos ou para quase nenhum, um monólogo até. Mas pra alimentar um pouquinho mais a interação com o mundo através de alguma criação, já que quase tudo do que eu faço diariamente é preenchido por tanta ciência. O tipo de hobbie que mantém as nossas sinapses ativas e nutre aquele espaço entre os dias, que vai costurando a nossa vida. E não demorou muito também para que fizesse sentido juntar o diário aos meus outros pedacinhos virtuais que sobreviveram ao tempo e à falta dele.
E é assim que começa aqui essa mistura de uma pessoa. Afinal, quem é que quer ser só uma coisa, né?